#II Mês do Halloween: Coraline

Autor: Neil Gaiman
Título original: Coraline
Tradução: Regina de Barros Carvalho
Editora: Rocco
Páginas: 159
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Sinopse: Coraline (e NÃO "Caroline", como ela mesmo diz inflexivelmente) acaba de se mudar para um apartamento num prédio antigo. Seus vizinhos são velhinhos excêntricos e amáveis que não conseguem dizer seu nome do jeito certo, mas encorajam sua curiosidade e seu instinto de exploração. Em uma tarde chuvosa, consegue abrir uma porta na sala de visitas de casa que sempre estivera trancada e descobre um caminho para um misterioso apartamento "vazio" no quarto andar do prédio. Para sua surpresa, o apartamento não tem nada de desabitado, e ela fica cara a cara com duas criaturas que afirmam ser seus "outros" pais. Na verdade, aquele parece ser um "outro" completo mundo mágico atrás da porta. Lá, há brinquedos incríveis e vizinhos que nunca falam seu nome errado. Porém a menina logo percebe que aquele mundo é tão mortal quanto encantador e que terá de usar toda a sua inteligência para derrotar seus adversários.

Mais uma vez eu começo dizendo que já falei sobre o livro antes, mas em poucas linhas (quem se lembra da #TAG: Doenças Literárias?). Agora, no mês do Halloween, não poderia deixar de lado o que foi o meu primeiro — e talvez até meu preferido — livro de "terror". Acredito que tenha começado bem, levando em consideração que o nome de Neil Gaiman quase sempre é associado ao fantástico, ao terror e ao estranho (o que não deixa de ser uma boa descrição dele mesmo como autor). 

Muitos conhecem a história de Coraline por causa da versão cinematográfica idealizada e dirigida por Hery Selick, lançado em fevereiro de 2009. O que muitos não sabem é que o filme é baseado nesse livro, de 2002, e menos ainda são os que de fato leram. 

A história é assustadoramente simples: Coraline é uma garota que mora com seus pais e tem uma vida bem normal. Tudo começa quando os três se mudam para uma casa compartilhada — uma mansão, na verdade, dividida com outros inquilinos: um par de velhinhas, donas de vários cachorros (vivos e empalhados, diga-se de passagem), e um velho russo treinador de ratos para um circo —, grande e, bem, sinistra. Com o tempo, a menina fica entediada e começa a explorar a casa ao máximo, já que seus pais não lhe dão atenção e não há com quem brincar, além do gato preto que ocasionalmente ronda a casa. Conta as janelas, tudo o que era azul, as portas... 

Até o momento em que Coraline encontra a porta

Das portas que encontrou, treze abriam e fechavam. A outra — a porta grande e de madeira escura e esculpida, no canto mais afastado da sala de visitas — estava trancada.
Perguntou à sua mãe:
— Onde vai dar essa porta?
— Em lugar nenhum, querida.
— Mas tem que dar em algum lugar.
Sua mãe balançou a cabeça.
— Veja — disse a Coraline.
Estendeu o braço e pegou uma corrente de chaves no alto do batente da porta da cozinha. Separou as chaves cuidadosamente e escolheu a maior, mais velha, mais escura e mais enferrujada. Foram em seguida para a sala de visitas. Ela destrancou a porta com a chave.
A porta abriu-se.
P. 16
Que surpresa teve a menina quando percebeu que a porta dava apenas em uma parede de tijolos. Desapontada por não poder ir atrás de mais novidades dentro de seu mundo, agora tão limitado, observou que a mãe não a trancou novamente. Durante a noite, Coraline ouviu barulhos e percebeu a porta entreaberta. Sonhou com ratos dançarinos, mas não levou a questão adiante.

Um dia, quando se viu sozinha em casa, decidiu pegar a chave novamente e explorar por si mesma. E é aí que encontra, do outro lado da porta, sua própria casa. Ou talvez o reflexo dela. Uma mulher e um homem, parecidos com seus pais, mostram a ela o que existe nesse novo e empolgante mundo. 

— Coraline? — disse a mulher. — É você?
E, então, voltou-se para ela. Seus olhos eram grandes botões negros.
— Quem é você? — perguntou Coraline.
— Sou sua outra mãe — respondeu a mulher. — Vá dizer ao seu outro pai que o almoço está pronto.
P. 33

Coraline, então, se vê diante de dois mundos: o normal, o qual não suporta mais, e o "outro mundo", em que seus pais lhe dão atenção, há muito para se explorar, os inquilinos são divertidos e até o gato preto fala. Com o tempo, no entanto, ela percebe que nem tudo é o que parece e terá de ser cuidadosa para driblar seus "outros pais" e salvar sua família. 

Acredito que esse livro, por mais curto que possa parecer, é perfeitamente completo. Neil Gaiman trabalha com poucos personagens, mas consegue criar uma história envolvente e detalhada a partir disso. O espaço da narrativa é muito bem explorado e excepcionalmente construído: o ambiente da casa de Coraline é parado, insosso, ao passo que o "outro mundo" é alegre e cheio de descobertas. A tentação para que a menina faça parte dele é, em parte, devido a essa construção. No momento em que ela começa a suspeitar de que algo está errado, os encantos desse mundo vão se perdendo e ela começa a ver o quão manipuladora sua outra mãe pode ser. Ela inclusive chega ao "fim" do mundo:

Continuou andando.
E então começou a névoa.
Não era úmida como a névoa comum ou a neblina. Não era fria nem era quente. Parecia a Coraline que estava caminhando para dentro de nada.
[...]
O mundo que ela estava percorrendo era um nada descolorido, como uma folha de papel em branco ou um enorme quarto branco vazio. Não tinha nenhuma temperatura, nenhum cheiro, nenhuma textura e nenhum sabor.
[...]
— Lugar ruim — disse o gato. — Se quiser chamar isso de lugar, o que eu não chamo. O que está fazendo aqui?
— Estou explorando.
— Não há nada para descobrir aqui — disse o gato. — Aqui é simplesmente o exterior, a parte do lugar que ela não se deu ao trabalho de criar.
[...]
— Mundo pequeno — disse Coraline.
— É grande o bastante para ela — disse o gato. — Teias de aranha só precisam ser grandes o bastante para apanhar moscas.
P. 72-74

Algo muito importante é a relação da menina com os pais. Sem muita atenção ou divertimentos, o que levaria uma criança a escolher ficar em seu mundo normal quando poderia ter os prazeres de se divertir sempre? Aí é que percebemos como Coraline é diferente. Seu objetivo nunca foi ser o centro das atenções, apesar de se deliciar com o cuidado que recebeu das "entidades" desse novo mundo — ela é uma exploradora, é curiosa e mais valente do que muitas pessoas seriam se estivessem na sua posição.

Além de pronta para resgatar seus pais, os apuros que a menina enfrenta são de tirar o sono. Sua "outra mãe" é um ser detestável em, pelo menos para mim, até hoje é assustador. E, enquanto o medo faria outras pessoas desistirem da jornada, afastando-as da saída desse pesadelo, ele fez com que Coraline lutasse ainda mais. Ela se aproxima de seus pais ao se lembrar de situações em que eles temeram, mas continuaram; em que foram corajosos justamente porque tinham medo. E ela decide ser corajosa por eles.

Coraline deu o primeiro passo para dentro do corredor.
— E por quê? — perguntou o gato, embora parecesse muito pouco interessado.
— Porque — disse ela — quando você tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem.
— Então é por isso que você vai voltar para o mundo dela? [...]
— [...] Estou voltando por eles, porque são meus pais. Se eles percebessem que eu tinha sumido, tenho certeza de que fariam o mesmo por mim.
P. 59-60

Sempre penso nesse livro como um disfarce de Gaiman. Ele esconde sua intenção por trás de uma história aparentemente sobre crianças, mas que, na verdade, serve muito mais como um lembrete aos adultos sobre o que é ser criança, sobre como é fácil esquecer da importância de levar crianças a sério e como elas podem ser subestimadas, mesmo quando veem o que mais ninguém é capaz de enxergar. 

Preciso dizer, no entanto, que o livro não é uma história infantil. Absolutamente. É sombrio em vários momentos, existem cenas mais assustadoras do que se esperaria e um final não muito satisfatório.  As ilustrações também são bastante sombrias. Mesmo dialogando com meu lado desenhista, que passa horas olhando os detalhes de Dave McKean em cada figura, posso ver o quão pesado o livro pode ser para crianças muito novas (aliás, a edição da Rocco ficou perfeita, o trabalho editorial foi primoroso). O leitor que mais se apetecerá será o que tiver um pouco de cada: para realmente apreciar o livro, é necessário ter vivido um pouco mais do que uma criança, mas ainda assim ter o olhar de uma, para entender a história em sua totalidade.

Por isso, apesar de gostar do filme de Selick, pouco me agrada a maneira como foi banalizado. Uma história tão cheia de tenuidades e com uma simplicidade perfeita para se criar a atmosfera do terror acabou virando um blockbuster hoje já esquecido. O melhor que fez foi colocar a história em destaque, já que o livro não era tão conhecido assim, mas o preço pago talvez não tenha compensado muito (apesar de a dublagem de Dakota Fanning como Coraline ter sido, de fato, um plus).

Recomendo o filme, porém quem leu o livro saberá do que estou falando. A comparação chega a ser impossível, visto que os objetivos foram muito diferentes entre as duas obras. O que não significa que não gosto do longa; como disse, gosto sim, e acredito que não existia uma maneira melhor de adaptar o escrito, mas deixo claro que não chega a ser bom o suficiente. Uma pena, mas ainda assim digo que tem suas qualidades, como o visual colorido e chamativo, e o único número musical que, parecendo deslocado de início, é sensacional e perfeitamente encaixado.

Deixo aqui minhas fortes recomendações para a leitura, além da citação escolhida pelo próprio autor para iniciá-la, e o trailer do filme — formem suas próprias opiniões, pois adorarei lê-las!

Contos de fadas são a pura verdade: não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos.— G. K. Chesterton







9 comentários :

  1. Não assisti o filme pelo trailer fiquei com vontade de assistir. Interessante o livro, não pensei que fosse assustador. Coraline é uma personagem muito esperta, quer explorar e conhecer o lugar, acho que no lugar dela também iria querer conhecer tudo rs. E percebeu logo que aquele outro mundo era perfeito demais. foi pra minha listinha, pois vou querer ler e saber como termina essa historia mesmo o final não sendo satisfatório o que é uma pena.

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  2. Oiiii! Não li o livro, mas já vi o filme milhares de vezes, eh uma gracinha, e tem horas q eh de arrepiar msm...sempre que posso revejo ....
    Bjs

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  3. Bel, nunca vi o filme e nem assisti ao filme porque achei que tinha uma pegada bem terrorzão que eu fico com medo, hahaha.
    Mas eu gostei do que você escreveu sobre a história, mesmo que tenha suas passagens bem sombrias. Fiquei com vontade de ler, mesmo que a capa me dê medo, haha.
    Isso de não ser tanto para crianças, sobre poder relembrar adultos o que é a infância, me pegou.
    O Neil é mestre no que faz, não podemos negar.

    Beijoooos

    www.casosacasoselivros.com

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  4. Oi, Bel!!
    Nunca li o livro e também não assisti o filme e agora estou me perguntando porquê?!! A história parece ser muito interessante e não uma história boba. Gostei muito da resenha e fiquei com o gostinho de querer conhecer um pouco mais sobre esse livro.
    Beijoss

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  5. Olá!

    Não o livro nem assisti ao filme, mas gostei do que fora apresentado da história

    Abraço
    http://www.revelandosentimentos.com.br/

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  6. Neil Gaiman tem um lugarzinho todo especial em meu coração então tudo o que ele escrever eu tô querendo, tô desejando, tô amando. Eu tenho esse livro, exatamente com essa capa e adoro, quando assisti o desenho achei um pouco pesado para crianças uma mulher que costura botões nos olhos, mas minha filha ama demais e adora os ratinhos! hihihi

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  7. Conhecia pelo desenho, mas não sabia do livro, apesar de conhecer o autor. Não é meu estilo preferido de leitura, mas tenho curiosidade sobre o final da história.

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  8. Meu Deus, como eu não sabia que um dos meus filmes favoritos é baseado num livro do Neil Gaiman, que é um dos meus autores favoritos? Vou ali bater minha cabeça na parede.
    Pelo que disse o livro é muito melhor e mais profundo que o filme, e isso me deixou muito ansiosa pra ler, passou a primeiro na minha lista.

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  9. Eu adoro esse filme, acho muito mais assustador que muitos filmes de terror por aí. Tenho curiosidade pra ler o livro, ainda mais sabendo que ele é bem diferente do filme. E cada vez aumenta mais minha vontade de ler os livros do Neil Gaiman...

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